domingo, 18 de junho de 2017

O Enigma da Chaves

O sábio chamou ser discípulo e disse: “Lhe darei 3 chaves, com as quais será capaz de mudar o mais importante dos mundos.”
“Qual mundo mestre?” - perguntou o discípulo.
“O mundo das ideias e dos sentimentos.” - respondeu o sábio.
“E quais chaves têm tamanho poder de transformação?” - indagou o discípulo com ansiedade.
Serenamente e com ar de mistério, o mestre respondeu: “A primeira chave abre o maior de todos os tesouros. A segunda chave destranca o maior de todos os segredos. A terceira chave o maior de todos os mistérios. Sozinha cada chave é poderosíssima, mas juntas seu poder é infinito. O homem que tiver as três chaves em seu domínio é capaz de mudar não apenas o seu mundo, mas o de todos a sua volta.”
O discípulo impressionado questionou: “Mestre, das chaves tão preciosas a um pobre discípulo como eu?”
O mestre sorrindo disse: “Elas serão suas, se for capaz de me responder três perguntas.
A primeira, qual o maior de todos os tesouros?
A segunda qual o segredo mais bem guardado?
E a terceira qual o mistério nunca decifrado?’

Passados muitos dias o discípulo veio a seu mestre e pediu-lhe permissão para fazer uma viagem, ele disse:
Mestre, tenho procurado por muitos dias a resposta ao seu Enigma das Chaves. Mas... Nada encontrei, nenhuma resposta que possa desvendá-lo. Permita-me partir além das fronteiras em busca da sua resposta.
O mestre sem esboçar nenhuma reação, assentiu com a cabeça e disse-lhe: Muitos discípulos empreenderam essa jornada, sem contudo avançar um passo na direção certa. Aquilo que buscamos mais longe, costuma estar mais próximo de nós.
O discípulo assentiu, compreendendo o recado do mestre, prometendo retornar em breve, o abraçou e partiu.
O discípulo andou além das fronteiras de seu país por muitos dias, tantos que se tornaram meses e anos. Até que um dia cansado de sua busca decidiu retornar a seu mestre.
Sua volta fora mais difícil do que a partida. Havia se passado tempo desde sua partida que o discípulo já não reconhecia mais os caminhos que levavam de volta a seu país natal. E com uma terrível expectação de jamais conseguir retornar a sua terra, o discípulo lembrou-se das últimas palavras de seu mestre: “Aquilo que buscamos mais longe, costuma estar mais próximo de nós.” Como um feixe de luz entre as nuvens, em um dia de chuva, aquelas palavras iluminaram o rosto do discípulo lhe dando uma nova esperança. Então ele disse a si mesmo: Tenho procurado por tantos anos descobrir qual é o maior de todos os tesouros. E nunca me dei conta de que o maior tesouro estava o tempo todo comigo. - ele riu de si mesmo. Lembrou-se de um ensinamento muito antigo que dizia: “Aonde estiver o teu tesouro, aí estará também o seu coração.” Agora tudo parecia mais claro na mente do discípulo, seu amado país era-lhe um tesouro precioso, e seu coração o levaria de volta para ele. Feliz e renovado com esses pensamentos ele levantou-se novamente para caminhar, a estrada já não lhe parecia tão estranha e até achou que estava contemplando ao longe como um risco no horizonte as altas muralhas da fronteira que anos atrás havia ultrapassado.

O horizonte pode ser mais distante do que imaginamos, após dias percorridos, o discípulo se deu conta de cada que na verdade tinha visto uma miragem, e que seu país realmente devia estar muito mais longe do que os olhos podem ver.
Envolvido em seus pensamentos não se atentou mais ao caminho que percorria e sem perceber pouco a pouco saiu da estrada principal. Logo estava andando por uma estreita via entre montanhas. Essa via descia a um profundo vale. A passagem parecia se estreitar cada vez mais e se não fosse por uma estranha figura parada quase no meio do vale, ele não teria se dado conta de que saíra do caminho.
“Como vai?” - perguntou o discípulo. Mas figura estranha e caricata não deu nenhuma resposta - “Está tudo bem com você?” - Nada, continuava calado. O sujeito parecia ser bem mais velho que ele, tinha uma barba longa, cabelos grisalhos, olhos castanhos, vestia túnicas parecidas com as dos discípulo, porém estavam tão desgastadas que mais pareciam trapos. Ele permaneceu parado no meio do estreito caminho, seu olhar era firme e penetrante como se pudesse ver através do discípulo.
Alguns minutos se passaram sem que o discípulo dissesse mais nada. Então ele pensou: “Vou passar adiante desse pobre homem e continuar minha viagem.” - Deu alguns passos em sua direção e o homem subitamente levantou a mão fazendo um sinal para que ele parasse. O discípulo, titubeou, pensou em ignorá-lo, mas o homem fechava o caminho de forma que não havia como passar. De repente, ao olhar para a palma da mão daquele homem, ele reconheceu a marca, um pouco deformada pela idade, mas não tinha como estar enganado. Aquele homem era da Ordem Kainos, a mesma ordem a que o discípulo pertencia. “Por que estaria ali? O que havia lhe acontecido? Terá se perdido em uma jornada?” - essas perguntas inundavam a mente do discípulo. Por um momento ele pensou em sua própria trajetória e que a poucos dias estava a ponto de perder-se.
O homem Estranho finalmente rompeu o silêncio, mas não com palavras.
Ele se abaixou e começou a fazer desenhos na areia.
O discípulo o observou, e começou e compreender as imagens que iam se formando. - “Mestre!” - disse ele de forma respeitosa, embora não tivesse certeza de que o homem fosse um mestre - “Está me propondo um enigma? Sim, um enigma.” - concluiu o discípulo.
Com movimentos suaves e precisos o homem deu forma ao um antigo enigma Kainos. A primeira forma foi a  imagem de uma antiga luneta daquelas utilizadas para olhar as estrelas, uma lupa para ver as pequenas, e três coisas macaquinhos, um tampava os olhos, o outro os ouvidos e o terceiro a boca. O enigma consistia em desvendar a relação entre as figuras. Poucos conseguiam decifrar o enigma, e os conseguiam levavam dias pensando sobre ele. O discípulo sabia que não podia recusar o desafio. Na Ordem Kainos um desafio é como um duelo, se você recusar estará desonrando quem o propôs, desonrando a si mesmo e a ordem. A demais se vencesse, poderia fazer a pergunta que quisesse, e o homem, pela tradição da ordem seria obrigado a responder. E ele precisa de respostas, por um momento ele pensou mais na recompensa do que no próprio enigma: - “Será que ele vem do nosso país? Terá notícias de lá? Saberá me apontar um caminho mais rápido? Talvez conheça meu mestre?” - foi quando lembrou-se do enigma das chaves que o levará até aquele momento - “Talvez ele tenha as respostas ao enigma do mestre.”  

O estranho era de fato um antigo membro Ordem Kainos, nunca chegou a ser mestre, muitos anos antes ele havia atravessado os mesmos portões por motivos diferentes. Mas nosso discípulo talvez nunca tenha descoberto isso.
Sem perder mais tempo o discípulo olhou as figuras fixamente como se pudesse ouvi-las responder seu significado. As imagens dançavam em sua cabeça, se cruzavam com centenas de informações aprendidas ao longos dos anos como discípulo do Mestre e a todas as experiências vividas em sua jornada. Uma hora havia se passado e ambos estavam calados, mas para o discípulo o tempo parecia ter parado. De Repente, teve um lampejo em sua mente, como uma corrente elétrica passando do profundo de seu cérebro as áreas da cognição, ele começou a explicar o enigma:
“Mestre... O homem é capaz de desvendar  o incomensurável universo de estrelas e galáxias longínquas. Também é capaz examinar as menores criaturas e até mesmo examinar coisas infinitamente microscópicas. Mas não é capaz de desvendar o maior dos os segredos: o pensamento. Portanto a luneta representa a visão das coisas grandes e distantes. A lupa das coisas pequenas e próximas. E os macaquinhos representam o terreno insondável da mente humana.”
O homem rompeu o silêncio com alegria: “Muito bem meu jovem irmão. Poucos homens decifraram esse enigma e poucos dos que o decifraram o aplicaram a sua vida.”
O homem falava sobre a grande ânsia que todos temos dentro de nós, da curiosidade insaciável que permeia o ser humano, do ímpeto por grandeza e conhecimento sem contudo nunca dominarmos o campo de batalha mais importante de todas a nossa mente.
O discípulo assentiu com a cabeça, e ao receber o sinal do homem perguntou: “Mestre, estou voltando para o meu país, sei que você é dela. Pode me indicar o caminho?”
O mestre lhe apontou  a direção do país, saindo do vale, rume para o norte: “Você está perto da nossa terra natal, mas por esse vale, terá de passar por uma densa floresta.” - respondeu o homem - “entretanto, esse é o caminho mais rápido.”
O discípulo agradeceu e se atreveu a fazer mais uma pergunta, ele precisa saber a resposta ao enigma do mestre. A resposta foi decepcionante e inusitada - “O que procuramos mais longe, costuma estar mais perto do que imaginamos.” - a mesma frase que seu Mestre havia lhe dito antes de ele partir em sua jornada. Meio desconcertado o discípulo agradeceu novamente e partiu na direção que lhe fora indicada.

Ao sair do vale, já podia-se avistar a floresta ao norte. Uma densa floresta de árvores tão grandes e até maiores que as muralhas de sua terra natal. Uma mata tão densa que após alguns passos, lhe pareceu ter anoitecido. Mas forçando os olhos, com a cabeça erguida pode perceber que em algum lugar o sal brilhava acima da copa das árvores. Os sons que ouvia começaram a perturbar sua mente, eram barulhos estranhos e incompreensíveis. Talvez animais ou outras criaturas da floresta. Pensava o discípulo que se mantinha firme caminhando no rumo norte. Até que um uivo assustador cortou-lhe os pensamentos, ele parou. O uivo fora tão forte e horripilante que sentirá como se a fera estivesse ali rosnando atrás de sua cabeça pronto para devorá-lo. Era incapaz de mover um músculo. Ouviu então um sussurro: “Por aqui... Venha, por aqui...” - o sussurro lhe pareceu ainda mais assustador, Olhava as árvores a sua frente mas não via ninguém. - “Será um monstro ou uma assombração tentando enganar-me?” Não conseguia reagir e nem pensar. Uma densa névoa tomou conta do lugar. Ele não enxergava um palmo à sua frente. Novamente ouvia: “Por aqui... Venha... Por aqui...” - fez um esforça sobre humano e moveu-se um passo à frente. Imediatamente a fera rosnou ainda mais forte. Parecia enfurecida com a ousadia do discípulo em ter penetrada naquela floresta. Ouvia novamente o sussurro: “Os puros...  Verão...” - embora igualmente assustadoras, essas palavras cavaram no subconsciente do discípulo que lhe trouxe a tona um dos ensinamentos de seu Mestre: “Os puros de coração verão a Deus.” - tentou fixar sua mente nesse ensinamento. A fera uivou novamente. O pavor foi tanto que ele fechou imediatamente os olhos. A fera uiva e rosnava, agora se movia tão rápido que pareciam ser duas, ao invés de uma. O discípulo sabia que se ficasse ali morreria. Ele lembrou-se da explicação de seu Mestre sobre aquela frase: “Os nossos maiores medos vem  da nossa mente. Que turvam o olhar, nos fazendo enxergar coisas horríveis. Mas é de dentro da alma que tiramos um olhar puro e bom, capaz de contemplar a Deus nas mínimas coisas.” - Com aquele pensamento fixo em sua mente, ele se forçou a abrir os olhos, a névoa parecia se abrir diante dele, que corajosamente começou a caminhar. Os rosnados da fera continuavam, mas começaram a parecer mais longe, mais distantes até sumirem de vez. A medida que caminhava começava a contemplar as belezas do caminho. Já não sentia mais medo e a floresta não lhe parecia tão escura. Pouco tempo depois caminhando chegou a saída da floresta, de onde pode avistar não muito longe os muros de seu país. Percebeu também uma placa, com o seguinte aviso: “A única fera nesta floresta está dentro de si. E os únicos sussurros que ouvirá serão de sua consciência.” - aquela era floresta da provação.
Felizmente o discípulo conseguirá ser aprovado pois possuía uma alma pura.

Em pouco tempo chegou ao portal de seu país. Nunca tinha parado para admirá-lo do lado de fora, era belíssimo. Feito de ouro puro, reluzente como cristal. O discípulo derramou lágrimas de alegria, um sentimento misto de felicidade e pesar encheram seu coração. Estava feliz por retornar, sentia pesar de ter partido e mais ainda por não ter alcançado seu objetivo.

Ao apresentar diante do Mestre o discípulo e implorou seu perdão. Entretanto, antes que pudesse terminar sua súplica o Mestre havia-o levantado do chão e abraçou-o afetuosamente: “Meu amado discípulo, você sempre esteve comigo e eu sempre estive com você.”
“Mas mestre, eu falhei. Não desvendei o enigma e quase não consegui me perdi para sempre longe de nosso país.” - retrucou o discípulo. O Mestre assentou com ele a mesa e disse-lhe: “O enigma das chaves, nunca foi sobre o prêmio, mas sobre você. Por isso permiti que saísse em sua jornada. Você não vê? Não foi apenas sua idade que mudou. O seu eu interior também mudou, cresceu, amadureceu.” - O discípulo apenas assentiu com olhar, demonstrando que parecia entender as palavras de seu Mestre. O discípulo então contou tudo sobre sua jornada, desde os dias trabalhando com tendas em terras distantes, as aventuras no mar, sobre sua frustração nos desertos longínquos, como desistirá até mesmo da vida, mas depois fora resgatado pelas lembrança de sua pátria, e tantas outras coisas que lhe aconteceram que seriam possíveis relatar em detalhes ainda que ficassem mil noites conversando.
Passados alguns dias o Mestre lhe chamou e repetiu a mesma proposta de anos atrás: “Lhe darei 3 chaves, com as quais será capaz de mudar o mais importante dos mundos. Elas serão suas, se for capaz de me responder três perguntas.” - Discípulo permaneceu em silêncio. O mestre prosseguiu:

“A primeira, qual o maior de todos os tesouros?”
“O maior de todos os tesouros é coração. Pois ele sempre estará junto ao que consideramos mais precioso. Como a jóia mais preciosa de um Rei.” - respondeu o discípulo.

O mestre continuou: “A segunda qual o segredo mais bem guardado?”
“O pensamento de um homem. Ele pode ler os astros, e sondar as coisas mais ínfimas, mais seus pensamentos sempre serão um segredo.” - disse o discípulo.

“E a terceira qual o mistério nunca decifrado?” - disse o Mestre.
“Uma alma pura. Que ninguém pode explicar ou tocar. Mas que é capaz de iluminar os olhos e contemplar a Deus.” - respondeu o discípulo.

Fascinado o Mestre, abriu um largo sorriso de contentamento, seu discípulo não havia percebido até aquele momento, mas havia aprendido nos percalços e perigos de sua jornada as respostas ao enigma. O Mestre então concluiu:

“Aquele que dominar seu coração, terá encontrado a maior riqueza de toda a terra, pois onde estiver o seu coração, para será o seu destino. Quem dominar seus pensamentos, não será refém de si mesmo, pois sua mente será um campo fértil idéias novas. E quem dominar sua alma, desvendará o maior mistério nunca revelado, pois verá Aquele que o formou.”

Ao escutar essas palavras o Discípulo entendeu que as chaves de fato sempre estiveram com ele. Agora ele podia finalmente entender seu propósito, mudar o mundo, pois já havia mudado o mundo mais importante de todos, o seu.

Fim.


By Pr Elder Pereira da Silva